Lê-aí | Bastidores da Redação: A região que pagará pelas estradas do Estado nos próximos 30 anos

Bastidores da Redação: A região que pagará pelas estradas do Estado nos próximos 30 anos

Existem duas maneiras de olhar para o plano de concessão de rodovias do Estado que prevê pedágios na região pelos próximos 30 anos. A primeira forma de ver é como o prefeito Diego Picucha vê: ele não quer pedágio em Parobé. Independente de melhorias na estrada e possíveis “benefícios”, Diego deixou bem claro que não quer a praça da ERS-239 no município. Essa é uma maneira de ver a situação: brigar com o Estado a fim de mudar o local da praça no plano. 
Muitos argumentos embasam a posição do presidente da Ampara e quero compactuar com alguns. O principal eu acredito que seja a questão da outorga, que é o valor que a empresa que vencer a concessão pagará para o Estado. No modelo da concessão ganha quem tiver a melhor outorga, além das melhores tarifas. Até parece bom, mais dinheiro para o Estado. O problema é que o valor da outorga vai servir para o Estado recuperar e fazer obras em outras regiões e não necessariamente na rodovia que receberá os pedágios pois, para o Estado, essas regiões já estariam contempladas no plano de concessão com as obras obrigatórias que devem acontecer no decorrer das três décadas. Em outras palavras, as regiões pedagiadas vão acabar custeando as obras de regiões sem pedágios.

Outra questão que mostra o descaso do Governo do Estado com a região são os acessos. Sapiranga tem acesso por viadutos (dois, inclusive), Parobé também e em Taquara há previsão de uma grande obra para resolver a situação da intersecção da ERS-239 com a ERS-020. Nova Hartz e Araricá foram deixadas de lado e, conforme o próprio representante do Estado disse na reunião de terça-feira em Nova Hartz que o estudo não apontou como necessário os acessos elevados. Obviamente é uma desculpa bem esfarrapada pois até semanas antes Nova Hartz sequer estava no plano de concessão, inclusive para receber sua pequena porcentagem de ISS referente aos dois quilômetros da rodovia entre Araricá e Parobé. O Estado ainda teve a cara de pau de justificar que o ISS havia sido dividido entre esses dois municípios e por isso Nova Hartz não havia sido incluída no plano. Visto o grande erro, a correção foi feita rapidamente. Duas obras foram anunciadas dentro do plano de concessão para Nova Hartz, uma delas é a implantação da terceira pista lá pelo 15º ano da concessão apenas. Essa é a única obra de rodovia prevista. Já o acesso, só um está no projeto: o que acessa a rua Dois de Dezembro, ainda em Araricá, que fará a ligação com o centro de Nova Hartz nos próximos anos. O retorno que hoje é o acesso ao município seria retirado, fazendo os motoristas retornarem no acesso metros à frente, atualmente no formato ‘alça de xícara’, que seria substituído por uma rótula alongada, como já mostrado em matérias publicadas aqui no Jornal Integração. Porém o ponto que quero chegar com essas colocações é que Nova Hartz e Araricá foram ignoradas no quesito segurança pelo Estado. E o pior é que não estamos falando de coisas para os próximos cinco anos, mas sim pelos próximos 30. Será que esses municípios podem esperar até 2050 para ter um acesso seguro? Quantas vidas a região vai perder até o Estado entender a importância destes acessos?

Outro trecho esquecido é o final da ERS-239, que não acaba em Riozinho, mas sim em Barra do Ouro, no município de Maquiné, Litoral Norte. O prefeito de Nova Hartz, Flavio Jost, até ‘brincou’ com a situação lembrando que quando o pedágio de Campo Bom foi instalado, de forma comunitária, a proposta era de manter o pedágio somente até a conclusão da pavimentação da rodovia. Nas palavras de Jost, “deve ser por isso que nunca terminaram”. 

Quantas vidas a região vai perder até o Estado entender a importância destes acessos?


Visitei o trecho na semana passada com o diretor do jornal, Vanderlei Scherer, pois queríamos conhecer o local supracitado. Vou ser breve na minha avaliação e já te convido a ler a reportagem nas páginas centrais desta edição. É um caminho muito legal para o litoral, extremamente mais curto. Dá pra passar com carro de passeio, mas não é muito aconselhável, ainda mais se ele for um carro mais baixo. Nos primeiros quilômetros é uma bela estrada de interior, base firme, mas um pouco estreita. Nem de longe dá pra chamar de rodovia. Caminhões teriam muita dificuldade, mesmo asfaltado, pelas curvas fortes em alguns trechos. Porém o caminho é um lindo atrativo turístico, tem muitas belezas naturais, um mirante sem igual na região. Pavimentado, aquele trecho tem um potencial gigantesco para o desenvolvimento dos municípios aos arredores.

Para finalizar nosso papo de hoje quero deixar uma reflexão: Há 30 anos o mundo era diferente. O Real nem era nossa moeda e Ayrton Senna sagrava-se tricampeão de Fórmula 1. Isso foi em 1991, ano em que também morreu o cantor Freddy Mercury e, após diversas independências de países anexos, a União Soviética anunciou seu fim. Veja como o mundo mudou desde então, principalmente como nossa região mudou. Muita coisa imprevisível ocorre no passar dos anos e, faço das palavras do deputado Issur Koch as minhas: o erro começa quando o Estado dá 30 dias para os municípios discutirem os próximos 30 anos.