24 May 2019 20:43
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O que pensam mulheres com deficiência sobre o papel da mulher na sociedade

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Foto: Deficiência em Foco

Elas são maioria da população brasileira com 51,6% do total, são também a maioria entre os eleitores com 52,2% do eleitorado brasileiro. Estão presentes em todos os setores da sociedade desde a faxina até a presidência da República. No campo da pessoa com deficiência as mulheres também são a maioria somando 26,5% da população com alguma deficiência, ou seja, uma a cada quatro mulheres tem uma deficiência.

Mesmo assim as mulheres parecem “esquecidas” pela sociedade, pois ainda é comum as mulheres trabalharem na mesma função dos homens e receberem salários menores, em média uma mulher ganha 76,5% do salário de um homem, além da sobrecarga de funções da rotina casa/trabalho.

Entre as mulheres com deficiência a situação ainda é mais preocupante, pois segundo dados da RAIS de 2017 apenas 0,35% das mulheres com deficiência tem um emprego formal. Outro dado que assusta é a frequência de abusos sexuais, estima-se que de 40 a 68% das mulheres com deficiência foram abusadas antes de completarem 18 anos.

Mas nem tudo são sombras, inspiradas em grandes mulheres como Frida Kahlo, Hellen Keller e tantas outras, as mulheres com deficiência vem se engajando e construindo representatividade social e lutando por seus direitos. Conselhos, associações, coletivos e outras organizações vem abrindo espaço e dando voz a mulheres com deficiência.

Ouvimos cinco mulheres com deficiências, que participam ou participaram de alguma atividade da deficiência em foco para analisar o papel da mulher com deficiência na sociedade. Carol Constantino, Marcy Oliveira, Dayana Beatriz, Vitória Bernardes, Josiane França e Thais Becker, comentaram sobre o papel da mulher com deficiência na sociedade, dificuldades enfrentadas e o que é preciso fazer para buscar mais respeito e inclusão da mulher com deficiência.

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Carol Constantino é de Campo Bom/RS, formada em Serviço Social e cadeirante devido a uma Atrofia Muscular. É criadora do Blog Cantinho dos Cadeirantes, um dos maiores blog´s do país dedicados a pessoa com deficiência.

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Marcy Oliveira, é de Novo Hamburgo/RS, estudante de Direito, cadeirante por conta da Mielomenigoceli. Vê no Direito uma oportunidade de possibilitar a inclusão social.

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Dayana Beatriz, é de Araraquara/SP, tem uma Distrofia Muscular Congênita Merosina Negativa, estudante de Marketing Digital, Digital Influencer e administradora da página Mulheres com Deficiência e do grupo Minha Cadeira, Minha Cúmplice, ambos no Facebook.

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Vitória Bernardes, é de Porto Alegre/RS, formada em Psicologia, cadeirante e militante dos movimentos das mulheres com deficiência.

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Josiane França, é de Porto Alegre/RS, cega, ela é modelo, miss model inclusão e militante da causa da pessoa com deficiência.

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Thais Becker, é de Florianópolis/SC, é formada em Direito e atua no Ministério Público do Estado de Santa Catarina.

- Qual é o papel da mulher com deficiência na sociedade?

Carol:

Antes de mais nada, a mulher com deficiência deve se enxergar como uma MULHER assim como as outras. A sociedade nunca nos tratou como mulheres, era raro ver uma mulher com amputação num comercial de beleza, tão pouco uma cadeirante em uma revista de moda. Hoje até começamos a ver em alguns lugares, porém, muitas pessoas ainda nos tratam apenas como PESSOAS com deficiência.

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Marcy:

O principal papel da mulher com deficiência na sociedade é romper as barreiras do preconceito que se tem como ela (por ser mulher já enfrenta muitos obstáculos impostos pela sociedade, sendo com deficiência então, isso se agrava), nosso papel é mostra que nós somos capazes sim de ter estudo, de ter sonhos, de construir uma família e mesmo na diferença ser igual as outras que não tem deficiência alguma.

Vitória:

O nosso papel dentro da sociedade é marcar nossa existência, reconhecer nossa identidade nesses lugares como mulheres com deficiência. Mesmo que os direitos sejam negados, nós existimos e vamos lutar por uma sociedade amplamente justa e mais igualitária.

Josiane:

Falando como uma mulher com deficiência, é mostrar para a sociedade que nós mulheres com deficiência, conseguimos fazer tudo o que as mulheres sem deficiência fazem em âmbito de trabalho e familiar. O capacitismo diz que não vamos poder fazer isso, ou aquilo ou ao contrário, ai gera aquele superpoderes que a sociedade pensa que nós temos.

Dayana:

Esse papel vem ficando cada vez mais forte. A mulher com deficiência não quer mais ficar em casa, longe de tudo, somente aos cuidados da família, queremos estar incluídas na sociedade, temos nossos direitos! Eu mesmo a cada dia tento mostrar ao mundo que sou uma mulher como qualquer outra, tenho vida normal, saio, me divirto, estudo, namoro... Sei que ainda temos muito a explorar, muita coisa para ser mudada, mas juntas podemos mais e logo a sociedade entenderá o nosso papel!

Thais:

O papel da mulher com deficiência é, ou pelo menos deveria ser, aquele que ela quiser desempenhar. Infelizmente a realidade é bem diferente e nós, mulheres com deficiência, estamos constantemente sendo desacreditadas ou diminuídas, seja em função do gênero, da deficiência ou de ambos, tanto nas relações pessoais como profissionais. Importante lembrar que a deficiência, assim como o gênero ou a raça, materializa-se enquanto uma característica transversal ao sujeito, de tal forma que a mulher com deficiência experiência, pelo menos, um duplo grau de vulnerabilidade, qual seja a soma das questões que envolvem o gênero e a deficiência.

- Quais as principais dificuldades enfrentadas pela mulher com deficiência?

Marcy:

Ser mulher com deficiência ainda gera muitos tabus, por exemplo, as mulheres que não tem nenhum tipo de deficiência são cobradas para serem mães, enquanto nós mulheres com deficiência somos cobradas pra não sermos porque "a gente não tem capacidade nem de cuidar de si mesma, imagina de uma criança" (isso é uma frase muito recorrente para muitas mulheres com deficiência, isso que citei só a maternidade como exemplo), se formos citar outros assuntos podemos ficar horas falando a respeito.

Dayana:

São inúmeras as dificuldades enfrentadas, mas acredito que a maior delas é a visão de incapacidade da sociedade. É difícil ser julgada como aquela que deve ser super-protegida, que falam: “Nossa, mas você não pode fazer isso! Você tem uma deficiência!”, infelizmente é assim!!! Eu fico P da vida!

Carol:

A falta de acessibilidade arquitetônica dificuldade demais a nossa autonomia, muitas mulheres com deficiência têm dificuldade de encontrar um salão acessível por exemplo. Porém, também enfrentamos a falta de acessibilidade atitudinal onde vários profissionais de saúde não se preocupam em estudar cada caso para não passar informações erradas sobre nós, como a ideia de que toda gravidez de cadeirantes é perigosa, fazendo com que a maioria delas abandonem a vontade de serem mães. Também é comum a falta de acessibilidade comunicacional, prova disso é a falta de intérpretes de libras nas delegacias das mulheres. As mulheres com deficiência auditiva que sofrem alguma violência acabam nem buscando ajuda nestes lugares, pois sabem que não conseguiram se comunicar com ninguém, fazendo com que continuem sofrendo por anos.

Vitória:

A maior dificuldade que a gente enfrenta é justamente decorrente dessa invisibilidade. Dentro do movimento da pessoa com deficiência não se reconhece a questão de gênero. No movimento de mulheres não se conhece o aspecto da deficiência, isso acaba gerando uma grande ausência no acesso a direitos, por exemplo, mulheres com deficiências vitimas de estupro, muitas são vitimas de estupro coletivo. Então mesmo superando os obstáculos para acessar o sistema de saúde quando se chega as mulheres não recebem nem os exames para detectar HIV. Mesmo rompendo as barreiras físicas o capacitismo impede o acesso ideal. Precisamos falar dessas invisibilidades.

Thais:

Eu acho que as questões que envolvem o corpo e autonomia da mulher com deficiência de modo geral. Quando analisamos, por exemplo, os índices de esterilização involuntária em homens e mulheres com deficiência, principalmente intelectual, percebemos que, no caso das mulheres, a realização do procedimento é muito mais comum do que nos homens, ainda que ambos tenham a mesma deficiência. Em termos de relacionamento, encontramos mais mulheres com deficiência em relações abusivas e violentas e no mercado de trabalho ainda somos a minoria.

Josiane:

A comparação é uma coisa que me preocupa muito, eu vivo isso, aquela mulher cega faz tal coisa, aquela faz outra coisa. As mulheres sem deficiência tem suas especificidades nós também. Pensam que somos assexuadas que não casamos, namoramos ou temos filhos, ou pensam que não podemos estudar. Mas nós podemos fazer tudo isso igual a qualquer mulher.

- O que é preciso fazer para que haja mais respeito e inclusão da mulher com deficiência?

Thais:

Acho que precisamos pensar primeiro em políticas inclusivas para as pessoas com deficiência de modo geral e depois promover espaços de empoderamento para que as pessoas com deficiência pontuem suas demandas dentro do contexto da transversalidade, ou seja, trazendo para a discussão a intersecção com outras características como o gênero, mas não só ele, precisamos falar também sobre a pessoa com deficiência negra, a pessoa com deficiência que é mãe ou pai, entre tantos outros contextos.

Josiane:

Ocupar espaços. Participando de espaços como o conselho municipal, fórum da mulher, o movimento de mulheres com deficiência, o movimento brasileiro de mulheres cegas e com baixa visão, sou correspondente inclusiva no Tom da vida, sou rainha do carnaval, modelo e miss model inclusiva. Então ocupando esses espaços mostrando a sociedade o que queremos e o que podemos fazer.

Carol:

Precisamos nos unir, dar forças uma a outra e assim nos fortalecer para estar preparadas para lutar por nossos direitos! Lute se seu consultório ginecológico não é acessível, lute se alguém discrimina você, lute por um lugar de fala e por silêncio para todos te escutarem... Lute como uma mulher!

Vitória:

É preciso de identificar nesses espaços, para pautar a mulher com deficiência. Muitas vezes as mulheres com deficiências não conseguem acessar esses espaços, muitas vezes por questões estruturais que são simbólicos na questão do capacitismo. Então as mulheres que conseguem romper essa bolha, que consigam falar, articular e movimentar outras pessoas para ir a luta. Precisamos garantir que essa exclusão seja desnaturalizada. Não existe conquista nenhuma sem luta. Precisamos pressionar o Estado para a criação de políticas públicas para combater a invisibilidade e a exclusão. E que a gente possa falar em todos os espaços, principalmente os de formação sobre Direitos Humanos, Gênero, Deficiência e demais desigualdades perpetuadas. A deficiência é entendida como doença, e às vezes não é o caso.

Marcy:

A sociedade tem que parar de ver a gente (as mulheres com deficiência) com diferença, ter um olhar de empatia sim, pena não... A gente realmente é diferente, mas não precisa ter tratamento diferenciado, apenas inclusivo, de poder ir e vir (frequentar os mesmos lugares que todo mundo sem nenhum constrangimento), de ter ou não ter filhos, de poder namorar (sem aquele jargão de que o namorado é um super-herói que tá fazendo uma caridade).

Dayana:

Mais oportunidades no mercado de trabalho, na mídia, com isso nosso papel terá grande importância na sociedade.

Ocupar espaços, buscar direitos, criar e orientar sobre os caminhos, é isso que essas e outras mulheres com deficiência buscam. E para que possamos realmente desejar um feliz Dia da Mulher temos que primeiro dar espaços e voz a mulher com deficiência.

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